Como enfrentar
a morte? Como enfrentar a doença derradeira? Como enfrentar a aproximação da
experiência da morte que marca a velhice? A ausência de palavras, de símbolos e
mesmo de rituais modernos para tais situações lança a angustia que marca essas
experiências para o campo do silêncio, da procura pessoal sobre as formas de
agir, portar, pensar e sentir.
Nobert
Elias, um dos maiores sociólogos do séc. XX, com seus mais de noventa anos,
propõe-se, em “A solidão dos moribundos” e em “Envelhecer e morrer”, a discutir
o constrangimento que a doença, a velhice e a morte geram nas sociedades
modernas. A partir de um ângulo privilegiado, do nonagenário, desenvolve um
relato mais que pessoal, quase íntimo, sobre a relação entre “envelhecer,
adoecer e morrer”.
Busca
não apenas desmistificar a morte, falando abertamente sobre ela: “A morte não é
terrível. Passa-se ao sono e o mundo desaparece – se tudo correr bem. Terrível
pode ser a dor dos moribundos, terrível também é a perda sofrida pelos vivos
quando morre uma pessoa amada”. Procura, também, diagnosticar as razões da
rejeição da morte e o consequente progressivo isolamento dos moribundos e
velhos exatamente no momento em que possivelmente precisariam de maior apoio e
reforço dos laços de amizade, respeito e reconhecimento.

“Fantasias individuais e
coletivas em torno da morte são frequentemente assustadoras. Como resultado,
muitas pessoas, especialmente ao envelhecerem, vivem secreta ou abertamente em
constante terror da morte. (...) Aplacar esses terrores, opor-lhes a simples
realidade de uma vida finita, é uma tarefa que ainda temos pela frente. É
terrível quando pessoas morrem jovens, antes que tenham sido capazes de dar um
sentido às suas vidas e de experimentar suas alegrias. É também terrível quando
homens, mulheres e crianças erram famintas pela terra estéril onde a morte não
tem pressa. Há muitos terrores que cercam a morte. O que as pessoas podem fazer
para assegurar umas às outras maneiras fáceis e pacíficas de morrer ainda está
por ser descoberto. A amizade dos que continuam vivendo e o sentimento dos
moribundos de que não causam embaraço aos vivos são certamente um meio.”
O
alongamento da expectativa de vida, certamente, deixou a experiência da morte
mais distante, quase inimaginável para pessoas jovens. No entanto tentar
evitá-la, deixando-a o mais longe e oculta quanto possível não é a única forma
de posicionar-se frente a esse momento doloroso. A finitude da vida pode
oferecer lições valiosas, assumir que ela chegará ao derradeiro final pode nos
ensinar muito sobre como agirmos diante de nossas próprias vidas e sobre nossas
relações para com as outras pessoas.
Sentidos
de vida não são dados, nem ao menos individualmente construídos. São
desenvolvidos na complexa relação “eu e nós”. Refletir sobre a experiência do
morrer pode ser de grande valia para aprendermos como viver, afinal “A morte é
um problema dos vivos”.