sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Instruções para estripitizar (ao som de Portishead)

Por Kamilla Damasio



Não tem segredo, é igual chegar em casa depois de um dia quente. Amarre o cabelo com o primeiro lenço azul celeste que aparecer na mesa. Os mais apressados tiram os sapatos, mas quando se começa pelo botão da calça é notável o alívio (vá direto ao vinil, bota Glory in Box). Alma, é coisa sensível, não gosta de ficar apertada mas adora música boa, de balanço mole. Tirar as calças é um processo interessante, principalmente as que apertam, tem que ter um rebolado, bem lento, pra passar dos quadris. Almas cronópianas ficam tão felizes quando as calças estão do joelho para baixo, que saem pelas partes, e dão de cara com calcinhas ou cuecas, e logo aprendem que dentro é quase sempre melhor do que quase dentro (Viu como são esses panos minúsculos e antipáticos? Prisioneiros de almas livres).

 O cadarço é solto com uma única agachada. Os dois ao mesmo tempo. Agora é só passar a ponta do pé no calcanhar direito, depois no esquerdo, ou vice-versa. Mas as meias não podem ser tiradas ao mesmo tempo! E nem faz diferença qual se tira primeiro. É só tirar. Almas sem pressa, vão dançando nas vísceras, enquanto com a ponta dos dedos, os botões se desencaixam, da esquerda para direita.

Sutiã, para os que usam, se tira com as duas mãos, virando-as para trás, da direita para a esquerda. É quando se dá o segundo pulsar quente das almas, um prazer que derruba qualquer semblante de bons modos. Geralmente causa estragos no superego. Mas libertar-se é assim mesmo, vai de encontro com o bom custume, com a velha tia beata que mora dentro de nós, que uns chamam de consciência e outros de boicote.

 Conflito se dá mesmo, ao tirar os panos minúsculos e antipáticos, é quando a tia beata segura a alma sedenta por liberdade. Corra para o banheiro, tome uma ducha. De cabeça. Da cabeça aos pés. E sinta: A água fresca descendo o couro ensolarado. Não tem tia que segure uma alma sedenta por frescor. Ela sai naquele suspiro que se faz com os lábios. Assoprando a água com a boca semi aberta.


A liberdade merece ser dançada. Braços erguidos para que o molhado percorra os sovacos. A cabeça deve ser virada lentamente: boca, pescoço e peitos molhados, mamilos duros. Dedos frios e mamilos duros. Umbigo fundo. Mão leve. Caricias incisivas. Toque forte e continuo. Give me a reason! São as palavras que normalmente são proferidas com sabor, pela boca molhada de prazer. Prazer de não precisar de uma boa razão pra ser o que se é. 

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