segunda-feira, 14 de maio de 2012

Kafka: o Abutre


"Um abutre bicava meus pés. Já havia reduzido botas e meias a frangalhos, e agora bicava os pés propriamente ditos. Investia contra eles com insistência, voava inquieto ao meu redor e depois retomava a tarefa.
Um senhor que passava por ali observou a cena por um instante e me perguntou por que eu me sujeitava ao abutre.
-Não tenho como me defender. Quando ele veio e começou a me atacar, é claro que tentei rechaçá-lo, até mesmo estrangulá-lo, mas esses animais são fortes. Ia me atacar o rosto, mas preferi sacrificar os pés. Já que estão quase dilacerados.
-Imagine só, deixar-te torturar dessa maneira! Exclamou o homem.
-Basta um tiro para dar cabo desse abutre.
-é mesmo? E o senhor faria isso?
-Com prazer. Só preciso ir até minha casa buscar a arma. Consegue esperar mais meia hora?
Ao que respondi: - Não tenho muita certeza.
E me levantei por um momento, rígido de dor. -Tente mesmo assim, por favor.
-Muito bem, irei o mais depressa possível.
Durante a conversa, o abutre se mantivera tranquilo, ouvindo cada palavra, olhando alternadamente para mim e para o homem. Naquele momento percebi que ele compreendera tudo.
Ele levantou voo, arqueou-se para ganhar impulso, e então, como um lançador de dardos enfiou-me o bico boca adentro. Até o fundo do meu ser. Ao cair para trás, fiquei aliviado ao sentir que o abutre se afogava irremediavelmente em meu sangue, que preenchia cada profundeza e inundava cada margem."

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