terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Fome de fome e de coragem

                Ele era um artista da fome. Jejuar era sua arte, passar fome o seu espetáculo. Jejuava menos por prazer e mais por não encontrar o alimento que o saciara.

                Qual sua fome? A dele, a minha, a nossa? Quais são esses alimentos que procuramos e não encontramos? Qual é a fome necessária para viver?

                Em tempo de fartura de possibilidades é fácil defender a alimentação, de preferência algum junk food produzido em massa. Difícil mesmo é reivindicar, em igual dignidade e estatura, a fome, esta ceifadora errante que caminha de braços dados com a morte. Qual sua fome? A dele, a minha, a nossa?

                A minha! Tenho vontade de caminhar pelos becos lamacentos, redemoinhar com os ventos e de não ir por ali. Tenho fome, tenho vontade, mas será que tenho coragem? Será que tenho coragem de assumir minha fome? Será que tenho coragem de questionar os alimentos que me preenchem, mas não me saciam? Será que tenho coragem de lutar pela fracassada vida do faminto?

                Passar e saciar fomes exige antes de tudo coragem, postura muito rara em tempos que valorizam, acima de tudo, receitas de vida pré-prontas e consumidas de forma requentadas. A história só se repete como farsa, vidas só se repetem como farsa, sonhos congelados e requentados só se repetem como farsa. Não, não quero sonhos que são farsa, não quero uma vida que seja um estereótipo! Mas será que tenho coragem?

                Santo Deus! Será que eu tenho coragem? Coragem de enfrentar os olhares de reprovação direcionados aos famintos? Coragem de assumir a fome e a morte em tempos que valorizam de forma desesperada e obsessiva a vida?


                A arte dele era essa santa arte de passar fome e causar desumanidades. Show de horror que conseguiu atrair atenção, alguma admiração e aplausos. Pois à fome está reservado esse lugar distante e indigno do horror. Tudo que ele queria era encontrar algum alimento que o saciasse. E você, e eu, e nós? Qual sua fome? A dele, a minha, a nossa?

Por Eduardo Rocha

Um comentário:

  1. Lindo texto Eduardo rocha. Não conheço a Casa Warat Goiás, mas fiquei curioso... Rs Já adianto, sou bem iconoclasta.

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