terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A Besta Quadrada

Texto literário produzido por Pedro Gustavo Sousa Lopes, para o terceiro Sarau Mentes Livres, que aconteceu em junho de 2010. O livro tema era "Bestiário", de Julio Cortázar. O desenho também foi feito por ele, especialmente para acompanhar o texto.


Era uma noite nublada e chuvosa, como se os céus chorassem cachoeiras inteiras que iam inundando tudo, com a ajuda ainda do rio que transbordava ocultando todos os caminhos, e por onde dirigir era uma tremenda aventura. Verdadeiras ondas quebravam sobre o Celta preto de Johnny Beast de Oliveira Pinto, carro inclusive oportuno para as condições climáticas em que se encontrava, pois quem não sabe qual o carro que avisa que vai chover?!?! Porém mais tarde, nessa mesma noite, Johnny Beast ia descobrir que os céus realmente choravam.
Depois de sair do hospital em que trabalhava, Johnny gostava de passar em seu açougue na Praça do Coreto para pegar carnes para a janta e o almoço do dia seguinte. “Empório da Carne Vila Boa, aqui não só a carne é de primeira, mas também o cliente” – era o slogan do açougue, o melhor da pequena cidade vila boense, inclusive.
Johnny sempre levava coração para seus filhos, eles adoravam. Certa vez Paulinho, o filho mais velho, que tinha apenas 9 anos, perguntou para o pai por que ele não trazia coração de gente e não de galinha para a janta, pois de gente deveria ser maior, e como ele gostava tanto de coração. Johnny o mirou por alguns segundos procurando uma resposta que não fosse em forma de bronca, e começou a explicar para ele que para isso deveria matar pessoas e que aquilo além de errado era canibalismo, e o pior de tudo, a lei proibia. Paulinho retrucou dizendo que o pai poderia ir ao cemitério e pedir alguns para o coveiro, e o pai para tentar acabar com a conversa disse que na verdade coração de gente tinha um gosto muito ruim. Paulinho então volta com um “então o senhor já provou?”. E o pai já irritado e sem resposta, o manda dormir e começar a comer mais vegetais.
Ao tentar sair do açougue Johnny percebe que a chuva piorara e havia estacionado seu carro um pouco longe. Então ele se lembra de uma capa preta de chuva que tinha de reserva no açougue, correndo para os fundos do estabelecimento para procurá-la. Logo ao entrar no cômodo ele se depara com a capa pendurada em um gancho de carne. Ele vai em direção a capa e acaba escorregando em um objeto de metal, dando de cara no chão. Ao levantar o tronco, sente uma forte dor na testa e solta um “CARAI DE ASA”. Olha para o chão a procura do objeto que lhe causara o acidente e encontra um saca-rolha, desses todo incrementado que encontramos nas lojas de 1,99 hoje em dia, que vem com abridor de garrafa e faca juntos, quase um canivete suíço. Ele pega o saca-rolha, lembra que falta um desses em sua casa, o coloca no bolso, se levanta, pega a capa e corre para o carro, sentido muito sua testa.
Mas antes de fato ir para o carro, Johnny percebe dois policiais fardados, bebendo no bar ao lado. Os dois, já bem “felizes”, não percebem que o rádio da viatura, estacionada na frente do bar, chama-os loucamente, repetindo inúmeras vezes a mesma frase:
_ Viatura 171, viatura 171, emergência no bairro João Francisco.
Johnny tenta avisá-los da chamada, mas os dois ignoram seu aviso e continuam bebendo. Johnny percebe duas garrafas de Rustoff embaixo da mesa, e pensa consigo: “tomara que eu e minha família nunca precisemos deles, e tomara ainda que abra um buraco no estômago deles bebendo isso”. Finalmente então ele vai para seu carro, o adentra e vai embora, ainda sentindo a dor na testa e pensando na cena que acabara de ver.
Depois de continuar sua aventura pelas ruas alagadas da cidade, Johnny finalmente chega em casa. Era uma casa nova, moderna, grande, dois andares, 4 suítes, garagem para dois carros e piscina para ser mais exato. Johnny a financiara pela CAIXA, pois é um “puta negócio”, e pagava leves prestações de 4.500 reais por mês. Por isso tinha apenas um Celta, e sua mulher uma Variant. Ao chegar procurou o controle do portão pelo carro, mas não o achava. Resolveu então ligar para esposa abrir por dentro, mas ela não atendia, o que é normal entre as mulheres, pensou, pois mulher parece que tem celular para deixar na bolsa. Pensou em ligar para o telefone residencial, mas lembrou que não havia pagado a conta – consequência do financiamento novamente - e nem receber ligação o telefone estava recebendo. Decidiu então descer na chuva e abrir o portão manualmente, mas ao puxar o freio de mão sentiu o controle do portão preso a ele. Respirou então aliviado por não ter de descer naquela chuva novamente. Aquela seria sua última respirada de alívio.
Estacionou o Celta e estranhou que a Variante de sua mulher não estava ali. Onde diabos essa mulher foi com essa chuva há essa hora? – pensou. Desceu do carro e se dirigiu a porta da casa. Estava entreaberta. Saiu e ainda deixou a casa aberta! Aném! – pensou novamente. Encostou a palma da mão na porta para empurrar e, quando ia efetuar a ação, seu cachorro latiu, um bacê preto chamado Dog – Johnny não era um cara muito criativo. Logo atrás dele vinha seu gato, o Cat – realmente ele não era criativo. Johnny sorriu para os dois, os acariciou e voltou novamente para a porta, mas Dog não parava de latir e seus latidos doíam lá na mente dele devido à dor que sentia na testa. Johnny então resolveu ir colocar Dog na coleira, e o levou para a área dos fundos através de um portãozinho que ligava a garagem a área. Para chegar à área ele devia atravessar um longo corredor que se estendia por toda a lateral da casa, onde havia duas janelas: uma que dava para o quarto de sua filha, Chrys Laura, de apenas 7 anos e a outra para a cozinha. Ao passar pelas janelas Johnny olhava para ver se via alguém, mas não achou nada. Pensou que sua mulher além de sair naquela chuva, ainda levara os coitados dos filhos.
Ao chegar à área Johnny logo prendeu Dog e lhe colocou uma focinheira para que ficasse calado. Porém antes de deixar o cachorro Johnny deu uma olhada nas suas ferramentas que ficavam penduradas na parede da área e percebeu que ali não estava seu facão. Na semana anterior ele havia brigado com sua mulher que tinha pegado o facão para cortar uma árvore que a estava atrapalhando a tirar o carro da garagem, e como sabemos uma árvore bem que pode atrapalhar uma mulher a tirar o carro da garagem. Pensou que ela teria pegado de novo e já ia em direção a casa pensando na bronca que ia dar novamente. Tentou entrar pelos fundos, mas a porta estava trancada, então voltou pelo longo corredor e chegou à garagem, logo abrindo a porta da frente e entrando na sala gritando o nome da esposa:
_ Dorotééééééíiaaaaa!!!!
_ Dorotéia sua vadia, você pegou meu facão de novo?!?!?
Não veio nenhuma resposta, então lembrou que o carro da esposa não estava lá e que provavelmente tinha saído. Acalmou-se e foi para seu quarto.
Ao chegar ao quarto foi direto para o banheiro. Tirou a capa preta toda molhada e a deixou no chão mesmo. Foi em direção ao espelho para ver o estrago em sua testa e se assustou com tamanho galo. Parecia que havia outra cabeça saindo da sua. Abriu o armarinho e pegou um Gelou spray. Leu a embalagem para ver a composição do produto – mania de médico e farmacêutico – e viu ainda que o Gelou além de dores e inchaço, acabava até com torcicolo. Ficou realmente impressionado com aquilo. Largou o tubo de Gelou em cima da pia e foi em direção ao box do chuveiro. O box era fosco e quando o viu percebeu que tinha uma sombra, como se alguém estivesse ali do outro lado. Bateu no box, mas ninguém respondeu, perguntou se havia alguém ali mas ninguém respondeu de novo. Resolveu então abri-lo e, com um gesto suspeito, meteu a mão no corrimão do box rapidamente e do mesmo modo o puxou para o lado, revelando ali uma bóia de jacaré, que tinha comprado para o filho para irem passear na próxima semana no Hot Park, em Caldas Novas. Tirou a bóia dali, deixando-a no banheiro mesmo, e tomou um relaxante banho quente.
Ao terminar o banho, Johnny colocou o braço para fora do box para pegar uma toalha. Passou a mão por toda a parede até perceber que ali não tinha uma toalha, nem em lugar algum do banheiro. Como Johnny odiava aquela situação! Saiu pelado, molhado e com frio do banheiro, correndo em direção ao guarda roupa a procura de uma toalha. O guarda roupa era enorme, oito portas, feito do mais resistente cedro, de uma cor avermelhada muito brilhante. Levou a mão à maçaneta e puxou, mas a porta estava emperrada. Colocou mais força na puxada, mas não adiantou. Usou agora as duas mãos e puxou já pensando que quebraria a porta e mandaria arrumar no dia seguinte. A porta destravou e foi abrindo devagar, mas Johnny, devido à força com que puxou e a água de seu corpo que havia molhado todo o chão, escorregou, caindo e batendo com a cabeça numa cômoda. Ali mesmo no chão, ele levou a mão a cabeça sentindo mais um galo, e quando conseguiu voltar a si e olhar para o guarda roupa, Johnny sentiu um cala frio que congelou sua espinha de cima a baixo, vendo à imagem que o atormentaria pelo resto de sua vida, a imagem de sua mulher dependurada pelo pescoço dentro do guarda roupa, sangrando pela boca, pelas narinas, pelo ouvido e pelos olhos, totalmente nua e com várias feridas pelo corpo, como se tivesse sido esfaqueada, porém em nenhum lugar vital, mostrando que antes de morrer devia ter sido cruelmente torturada.
Johnny, ainda no chão, foi levando seu corpo para trás, sem saber o que fazer, até um ponto em que sentiu na sua mão esquerda um líquido viscoso, quente. Trouxe sua mão até a frente de seu rosto mostrando que aquele líquido na verdade era sangue, que estava saindo da cômoda na qual batera a cabeça. Foi em direção a uma de suas gavetas, temendo o pior, e ao abrir a gaveta o pior aconteceu: dentro da gaveta estava o corpo esquartejado de Paulinho, junto com seu facão. Mal dava para identificar o corpo. Nesse momento Johnny estava tão branco como cocaína, e em poucos segundos entrou em choque, perdendo os sentidos lentamente e desmaiando logo em seguida.
Johnny acordou no hospital em que trabalhava, sem saber exatamente onde estava e um tanto dopado. Tentou levantar, estava meio cambaleante e acabou caindo da cama. Um colega médico que ali estava correu para socorrê-lo no chão, mas Johnny o empurrou. Ele se lembrava de tudo, tentava não acreditar, mas aquela imagem não saia de sua mente. Saiu correndo do hospital, tirando a força todos que estavam no seu caminho. A tormenta era tanta que nem o grau causado pelos remédios conseguia segurá-lo. Correu e correu até chegar a sua casa. Ali estava a polícia, interditando a casa. Ele entrou desesperado na casa, em meio aos policiais, esbarrando em todos e em tudo. Foi direito para seu quarto procurando ali novamente os corpos de sua mulher e seu filho. Tinha esperança ainda de achar sua filha viva, mas o que ele não sabia era que ela também tinha sido esquartejada; estava na gaveta de baixo. Ao chegar ao quarto entrou e trancou rapidamente, de modo a deixar todos os policiais de fora. Olhou o quarto, mas nada mais estava ali, apenas manchas de sangue.
Nesse momento subiu um ódio inexplicável pelo seu corpo, uma raiva demoníaca. Nesse momento surgiu não o Batman, não o Wolverine, mas A BESTA. A partir dali não existiria mais o Johnny Beast de Oliveira Pinto, existiria apenas A BESTA, em busca de vingança.
A Besta saiu do quarto pela janela e sumiu. As pessoas só a veriam pelo noticiário, a não ser claro suas vítimas.
Após alguns dias a polícia conseguiu prender o responsável pelo crime contra a família do antigo Johnny. Mas isso só serviu para juntar todas as vítimas da Besta em um só local. Digo todas as vítimas, pois como vocês verão, não era apenas uma. A Besta julgou responsável pela morte da família de Johnny tanto o assassino como os policiais que bebiam no bar e não cumpriam com o dever. Quem sabe se eles estivessem alerta não poderiam impedir aquele crime.
A Besta Quadrada planejou tudo nos mínimos detalhes. Esperou um dia onde apenas os dois policiais estariam de plantão na delegacia, já que era uma cidade pequena e não havia muitos agentes ali, e como um fantasma que surge do além a Besta apareceu bem na frente dos dois policiais. Aqueles dois mal viram o que os atingiram. De um lado o facão, ainda sujo de sangue dos filhos de Johnny, atravessando o coração de Rezende, e do outro lado um saca-rolha, bem no meio da testa de Fábio. Depois a Besta Quadrada pegou uma garrafa de Rustoff, jogou toda a vodka sobre os corpos sem vida dos dois policiais e ateou fogo.
Agora só faltava mais um, e este estava encurralado. Era uma vítima fácil, mas que iria sofrer muito. Mais uma vez a Besta apareceu do nada, e numa facãozada, como se fosse uma espada jedi, arrancou o cadeado que separava um assassino do outro. Os dois se entreolharam, como se um entendesse o que o outro pensava, e num golpe repentino a Besta perfurou o olho esquerdo do assassino com o saca-rolha, desferindo depois outro golpe, agora com o facão, que rasgou levemente o pescoço do assassino, de modo a não matá-lo ainda. O assassino caiu no chão agonizando de dor e sangrando como uma galinha degolada. A Besta ainda perfurou várias partes de seu corpo com a lâmina que havia no saca-rolha, e a cada perfurada, o assassino se retorcia, mas não morria. Quase terminando a sua vingança, a Besta tirou a máscara, olhou novamente nos olhos do assassino, chegou bem perto do seu ouvido e perguntou:
_ Por quê?
O assassino quase sem vida murmurou:
_ Por vingança!
Então o assassino tirou do bolso um papel amassado, entregando-o a Besta e logo após perdendo o resto de vida que ainda existia. A Besta vendo aquilo enfiou o facão no coração do assassino e o arrancou, dando então uma mordida no órgão ainda batendo. Depois disso ela pegou o papel amassado, o abriu, ficou alguns segundos tentando entender o que era aquilo e, de repente, um choque. Estava de volta Johnny Beast, apavorado, como se estivesse vendo novamente os corpos de sua família. Então ele percebeu que na verdade ele realmente era uma besta, uma BESTA QUADRADA, posteriormente enfiando o saca-rolha na sua própria cabeça.
O papel caiu aberto no chão, revelando o que na verdade era uma foto, a foto de uma garotinha, filha do assassino, morta há 1 ano por erro médico.






Moral da História: “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”.





Pedro Gustavo Sousa Lopes

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