terça-feira, 22 de março de 2011

Ata literária da fundação Casa Warat São Paulo

ATA LITERÁRIA (OU PEQUENO-GRANDE MANIFESTO) DE FUNDAÇÃO DA CASA WARAT SP
São Paulo, 12 de fevereiro de 2011.
Numa ilha verde em meio à visão de uma metrópole opressora, Leopoldo, o irmão argentino mais brasileiro e, quem sabe, baiano, Jaque e Levy, duas individualidades que se somam nas diferenças, Mariana e André, duas diferenças que se multiplicam em infinitas possibilidades de cores, amores e ideias, reuniram-se com uma única certeza: de que uma avenida não é feita apenas de concreto, mas também de amor, loucura e poesia.
Cansados de se sentirem sozinhos em meio à multidão indiferente, do esquecimento dos outros, das reificações e imediatismos, das artificialidades e automatismos, da renúncia de si, que contamina as relações entre as pessoas com um imperativo de pressa.
Cansados das passividades, de um desespero intoxicante, da falta de ar, de um cotidiano cinza, e dos conselhos que apontam que a saída está na aceitação das avenidas anestesiadas de normas e regras, que conduzem a um agir no qual se esquece da vida que se sente.
Cansados da papelização das pessoas, da processualização das dores, da protocolização da vida, pensaram na utopia de uma ilha flutuante que pode chegar a muitos portos, por muitos caminhos. Uma ilha que pode deixar de ser ilha e plasmar territórios de música, arte, intervenções urbanas, para produzir lugares livres que se fundam na liberdade criativa dos outros.
Aquele lugar onde esse pequeno grupo se reuniu era também um oásis. Um oásis iluminado a velas que desapareciam no ar. Um oásis mágico, em que a selva de concreto, de repente, tornara-se verde. Lá, incrivelmente, fazia frio em pleno verão. E lá dançaram até catala e trégua, e brindaram com um drink de fernet portenho.
E foi lá, num rizoma tão fecundo, que essa Casa, mais uma Casa nômade, começou a brotar.
Lembraram daquela cidade cinza recortada, daquele lugar que pedia socorro ao mesmo tempo que mostrava que todos estavam SÓS.
E nele colaram flores coloridas, muitas flores. E viram cronópios, aqueles bichinhos verdes e úmidos, parecidos com micróbios, que se empolgam ao cantar e são atropelados, perdem o que levam nos bolsos e deixam as lembranças soltas pela casa... E quando chegam numa cidade desconhecida, os trens já partiram, os táxis não querem levá-los, chove a cântaros, e mesmo assim eles sonham que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados, e acordam felizes.
Viram que a cidade gris poderia ter muitas cores, poderia ter novamente realçadas as suas sutilezas.
Viram que nela poderia haver abraços. Repararam que há beijos bem em frente às Arcadas e se lembraram que é sim possível inscrever o amor no poder.
Viram que a luta continua.
Perguntaram-se, então, do porquê do oásis. Não seria fechado demais? Exclusividade demais? Não seria um encastelamento, um ressoar contido? Não estaria, assim, comprometido o poder emancipatório das idéias nele (trans)formadas?
Foi assim porque a Casa Warat é um espaço mágico. Não foram até o oásis, ele simplesmente formou-se diante dos olhos esperançosos, sem que se dessem conta. Foi assim, mágico, porque é assim que é. E foi assim ao longo de quatro dias em que estiveram juntos.
Porque foram dias em que viveram aquela mesma cidade cinzenta de sempre, de uma forma tão intensa, que aqueles quatro paulistanos sentiram-se noutra cidade. E, ao final, todos tinham incrivelmente a mesma sensação: eram eles que viajavam, e não o seu querido irmão argentino, que revia São Paulo depois de tantos anos e a redescobria.
E naquela cidade cosmopolita viveram o Brasil e nela deram a volta ao mundo em 04 dias.
Sim, foi mágico, porque assim que é. Mas disso não se fala, sente-se. Vive-se e ponto. E é isso que eles querem mostrar.
Foi mágico, porque na cidade do caos, os caminhos subitamente apareciam, as vagas para estacionar brotavam logo à frente. Os semáforos estavam sempre amarelos. O material de trabalho simplesmente aparecia, assim como as idéias e os sentimentos em comum. Tudo fluía. Até a esperança aparecia - não aquela de que falava Cortázar, mas sim a do insetinho verde que costumam dizer que traz sorte.
Foi num oásis, porque na cidade do caos é necessário buscar um lugar em que se possa, simplesmente, parar.
Parar para respirar e lembrar que se têm pulmões que se podem encher profundamente de ar. Para sentir-se a si mesmo. Para ter paciência e viver um outro tempo, um outro ritmo. Parar e lembrar de sentir o corpo que se tem. E que ele pode se relacionar com os outros num sorriso, num abraço, em palavras de cuidado, num beijo, num olhar fraterno. E até mesmo num silêncio. Parar porque todos estão aqui e são indiferentes uns aos outros. E entre eles é como se houvesse barreiras, degraus invisíveis, que se proliferam, que contaminam, que afastam e anestesiam.
Somente num oásis, vivendo um outro tempo dentro do tempo, é que se torna possível olhar para dentro de si e dos outros.
Mas que fique claro que esse oásis, ou ilha flutuante, está aberto a quem quiser. A quem puder se deixar levar pelos sentimentos verdadeiros da essência humana. A quem conseguir deixar de lado toda essa prisão metódica que nos prende feito escravos... Entubando toda a cor descoberta e existente em potes hermeticamente fechados.
Queremos, então, o estardalhar dos vidros. Que respinguem as cores mil em cima dos mapas rasgados da cidade que não pára. Que nos faça sangrar o sentimento verdadeiro, inundando o calar silente pelo grito d’alma. Queremos expandir o espaço, ampliando as dimensões daquilo que se sente, daquilo que se vê. Do abraço.
Esse oásis, ou ilha flutuante, não se encerra em si mesmo. Deve expandir-se para além dos limites que o tornam oásis. Deve ampliar-se para além-mar de nosso mundo, de nossas barreiras. Deve inundar de um verde vivo, pulsante. Expandir-se para além dos limites desse delírio, utopia, sonho.
Mas com o que sonhamos?
Sonhamos com um cotidiano em que podemos deixar de ser famas para nos assumirmos como cronópios, seres desorganizadores, que vivem não de lembranças e regras rígidas que, cartesianamente, ordenam uma vida de mesmices seguras, mas de impulsos verdadeiros, do sentimento bruto e vivo.
Sonhamos em medir o tempo com o cuidado que merece o tempo – não o cuidado de dar corda em um relógio, mas com o cuidado de quem aprecia uma alcachofra folha por folha e, ao final, não vê encerrado um ciclo, terminado um caminho ou morta a esperança, mas sim um delicioso coração, que se pode comer com azeite, vinagre e, por que não, com chimichurri!
Sonhamos com uma pedagogia que rechace toda forma de reprodução de poder. Uma pedagogia do novo que não discrimina a diferença e que não faz do ensinamento egoísta uma finalidade no interior de relações de adulação fingida, de criatividades mortas, de discursos fundados no morrer cotidiano da esperança.
Desejamos o retorno ao desejo como fundamento para uma educação que não ordene verdades enclausuradas, mas que sussurre a libertação das verdades instituídas. Uma permanente tensão das fronteiras do saber rumo não a uma vulgarização do conhecimento, mas a descobertas de novas potencialidades, que podem estar silentes dentro de cada um de nós, ou, quem sabe, no sonho de um irmão ou na afetação estética provocada por uma irresignação de um fato da vida.
Desejamos conhe-ser diferente.
Na abertura ao diferente, que supera a previsibilidade pré-estabelecida e a segurança enjaulada. A possibilidade de surpreender-se no outro e nele se diluir. Permitir o seu devir em nós mesmos, de modo a garantir não uma experiência segura ou assegurada, mas correr o risco da suspensão de si mesmo.
Na abertura das cascas sedimentadas na desolação. No cair dos muros construídos, na redescoberta da essência humana. E que tal espírito vivo nos oriente frente às tragédias de um mundo doente de coração. Que nos permita enxergar, pois, o sentido para o prolongar da vida, de forma autêntica, sem a diluição ilusória do cotidiano.
E, finalizando (ou começando?), vamos “todos juntos!”... seguindo... fluindo... amando... buscando... tentando... Venham todos! Vamos juntos no bloco do “Custa, mas vai!”, que de forma carnavalizada e paulistana, parece sintetizar o nosso desafio e aquilo que nos une:

"Nós somos na Terra o grande milagre do amor:

E, embora tão diversa a nossa vida,

Dançamos juntos no carnaval das gentes,
Bloco pachola do "Custa mas vai".
E abre alas que eu quero passar!"
(Mário de Andrade, CLÃ DO JABUTI)


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