domingo, 7 de novembro de 2010

Caro Iury



Por Eduardo Rocha


Caro Iury,

Achei muito forte e interessante suas palavras de ontem à noite. Sim, é importante enfatizar a amizade, mas a solidão é imprescindível. Enquanto você expunha, veio à mente algumas passagens de um romance que certa vez li e que me marcou fortemente...

“Era um anoitecer de dezembro, estava escurecendo, e os presidiários voltavam do trabalho; preparativos para a hora da chamada: um oficial de baixa patente, bigodudo, abriu-me a porta de tão estranho lugar, para os dez anos vindouros, onde eu haveria de suportar sensações de tal tipo que se não as estivesse experimentado, diria que seria impossível enfrentar. Eu jamais poderia, por exemplo, imaginar tormento maior que não poder ficar sozinho um momento, ao menos, nos dez anos da minha sentença. No trabalho, vigiado; no presídio, com a companhia dos outros duzentos condenados; e nunca, nem uma só vez, a solidão! Contudo, tive que me acostumar.

(...)

Logo compreendi que o trabalho forçado, a privação de liberdade são coisas horríveis, mas o pior de tudo é ser obrigado a ficar o tempo inteiro com os outros, sem direito a um momento consigo próprio. A vida em comunidade é um ato de escolha, voluntário, ao passo que na prisão é imposta, não estabelece laços, e eu creio que cada prisioneiro sente isso; ainda que inconscientemente, sente isso”. ( Lembrança da Casa dos Mortos, Dostoievski)

Creio que o estar só, e aqui me remeto ao metafórico e ao literal, é parte essencial para construção da intimidade. Precisamos dessa conversar silenciosa do “eu comigo mesmo”. Não é, querido Sócrates?

Porém, é importante destacar que não há complementaridade entre o “sozinho” e o “encontro com o outro”, pois não são partes bem definidas e moldadas racionalmente, não formam um todo ideal. Quanto é falsa e cruel a ilusão romântica de complemento. Idéia marcada pela ética do guerreiro que submete, molda, estabelece condutas e elimina toda a possibilidade de encontro com o outro (Belo insight, Herinque Duran!).

O “estar só” e o “estar com o outro” entrelaçam-se em uma relação complexa, conflituosa que deve ser permeada pela ética do cuidado, da ternura. Não há limites claros, nem regras, nem condutas a serem seguidas, tão pouco o certo e o errado. Há o risco, “...os abismos, as torrentes, os desertos...”

É imprescindível falar sobre a importância da solidão em um mundo em que há a imposição do outro. Ressalto: imposição, que não se confunde com “encontro”. Na sociedade do consumo, o “outro” é uma exigência de mercado, é produto moldado e idealizado, que deve ser devorado por meio de relações fetichizadas, reificadas.

Warat versa sobre a importância de ser escutado. Talvez seja o momento de reivindicarmos o direito à solidão, dimensão indispensável da escuta waratiana ou da ternura de Restrepo.

Caro Iury, saiba que tem em mim alguém que lhe entende em sua reivindicação de ficar só. Somos companheiros na solidão...

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