quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O bizarro, o acaso e o absurdo


Por: Lívia Barbosa

Era um final de tarde chuvoso após um dia maçante de trabalho quando conheci Sísifo. Um sujeito normal: nem gordo e nem magro, nem alto e nem baixo, nem feio e nem bonito. Não fosse pelo chá de boldo quente com gim que Sísifo tomava, provavelmente continuaríamos a ser dois estranhos que freqüentam o mesmo bar. Mas eu nunca havia conhecido uma combinação tão estranha para bebidas e não consegui esconder o meu espanto. Ironicamente, foi o bizarro que nos aproximou naquele momento.

Apesar de ter se mostrado logo um sujeito ordinário, Sísifo era cheio de surpresas. E foi entre goladas pouco animadoras da estranha bebida que me contou sua estória. Dos infortúnios do acaso, do engano da morte à condenação pelos deuses, uma sucessão de acontecimentos espetaculares, estranhos, comoventes e absurdos, tudo a um só tempo. O extraordinário subsumido a uma só vida. Um sujeito ordinário subsumindo o mundo todo.

Eu devo admitir, no entanto, que toda essa emoção e êxtase gerados pela estória de Sísifo correspondem a uma análise anacrônica daquele dia. As estórias em si, no momento que eram contadas, não tinham o impacto que poderiam ter. Sísifo não era um bom contador de estórias, não naquele dia. Ouvi-lo era como assistir a um filme de um sujeito de um país distante, sem qualquer relação com os eventos do cotidiano que conheço. Isso contraditoriamente carregado de uma banalidade trivial e pouco chamativa. Não seria exagero dizer que, dado o pouco esforço expressivo de Sísifo, o boldo com gim continuavam a me parecer muito mais interessantes do que os eventos ali narrados.

Mas nada disso mudou a minha vida. Nem o homem sem rosto, nem a bebida intragável e nem o tango que emanava suave do jukebox do bar. Foi só no final daquele dia, num tempo de 3 segundos, que o tempo passou a não importar mais. Sísifo se levantou, jogou alguns trocados no balcão para pagar a conta e voltou-se para mim dizendo: - Então nos encontramos aqui amanhã, no mesmo horário, depois do expediente.

Tudo fez sentido e tudo deixou de fazer sentido.

O absurdo estava em todo lugar.

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