sábado, 26 de junho de 2010

"DOGMATISIA AGUDA", texto teatral do "Fictício Livro de Ilustrações e Devaneios"


Por: Paulo Dante

Personagem 1 surge de repente.

[Personagem 1] Mas que espécie de bando de destrambelhados é esta, com suas idéias comunistas e pretensões macabras?!

Personagem 2 se levanta.

[Personagem 2] Como é?
[Personagem 1] Comunistas!
[Personagem 2] És louco!
[Personagem 1] ora, loucos são vocês, com desnecessárias problematizações e exacerbadas liberdades! O Direito é uma caixa fechada, para que abrí-la?!
[Personagem 2] Para se explorar o que tem dentro.
[Personagem 1] Para maculá-lo, isso sim!
[Personagem 2] Modificá-lo!
[Personagem 1] Maculá-lo!
[Personagem 2] Modificá-lo!
[Personagem 1] Maculá-lo!

Personagem 3 surge.

[Personagem 3] Com licença.
[Personagem 1] O que deseja?
[Personagem 3] Preciso da ajuda do Direito.
[Personagem 2] Pois veio à pessoa certa.
[Personagem 1] Certamente o comunista refere-se a mim.
[Personagem 3] Comunista?!
[Personagem 2] Não dê ouvidos a este pobre coitado, ele sofre de Dogmatisia Aguda.
[Personagem 3] E é grave?
[Personagem 2] Não muito, mas só se pode curar aqueles que desejam ser curados.
[Personagem 3] Uai, e ele não quer?
[Personagem 2] Não.
[Personagem 3] Mas então é louco!
[Personagem 1] Louco nada! Ora! *com fulgor*
[Personagem 2] Deixe isso de lado e diga, por que precisa do Direito?
[Personagem 3] É porque me passaram a perna.

Personagem 1 salta e todos se assustam

[Personagem 1] Ora, um caso! Venha, venha, me acompanhe, eu posso ajudá-lo! (puxa Personagem 3)
[Personagem 2] Ah, não pode não, eu é quem vou ajudá-lo. (puxa Personagem 3)
[Personagem 1] Suas técnicas vermelhas de nada adiantarão a meu cliente, comunista! (puxa Personagem 3)
[Personagem 2] SEU cliente?! (puxa Personagem 3)
[Personagem 3] Uai, mais se vocês continuarem assim vou precisar é da Medicina!

Ambos soltam Peronsagem 3, reclamando juntos, baixo, "Eee, a Medicina não, Medicina não..."

[Personagem 3] Agora qual de vocês vai me ajudar?
[Personagem 1] Ora, é demasiado simples tal situação, prezado trabalhador. Pela bagatela, quantia pífia monetária que equivale a aproximadamente 3/4 da totalidade do valor a ser obtido, posso munir-lhe com os artifícios necessários à sua empreitada contra o mal.
[Personagem 3] Hein?
[Personagem 2] Ele quer te cobrar o olho da cara.
[Personagem 3] Uaai, meu olho não, rapaz! Vou é com o outro!
[Personagem 1] Oora! Se assim deseja, peão, pois bem! O dogmatismo estrito há de prevalecer diante de suas terríveis idéias Waratianas!


[MUDA A CENA]


[Juiz 1] A lei é mais do que clara neste caso. Embaso-me no dogmatismo, nos códigos, na doutrina e em toda sorte de documento cuja procedência lhe permite ser fonte de Direito, de forma a deixar claro, claríssimo, TRANSPARENTE, que o senhor que moveu esta ação em nada tem razão. Pouco importa ser ele um cidadão desta sociedade numa empreitada contra grande empresa, empresa esta que interesse algum tem senão abusar de um ente social. E é por isso, com baso nisso e, acima de tudo, com base no ESPÍRITO DAS LEIS, que EU, o JULGAODR AUTÊNTICO E IMPARCIAL (...)

"OOOOOH!"

(...) decido contra o cidadão, livre de posições políticas e opiniões próprias. Afinal, enquanto JULGADOR AUTÊNTICO E IMPARCIAL (...)

"OOOOOH!"

(...)não tenho espaço para tais c--

[Juiz 2] Bla bla bla bla bla!
[Juiz 1] Ora, quem vem lá?! Quem ousa interromper o JULGADOR AUTÊNTICO E IMPARCIAL (...)

"OOOOOH!"

(...)em seu discurso?!

[Juiz 2] Um mero julgador, amigo.
[Juiz 1] Amigo não; VOSSA EXCELÊNCIA.
[Juiz 2] Que de excelente não tem é nada!
[Juiz 1] Como é?!
[Juiz 2] Livre de opiniões?! Imparcial?! Faz-me rir, faz-me rir! Não passa de apenas mais um que nega o poder pertencente ao judiciário. De mais um que macula o rol do Direito com seus discursos pomposos e que abusam de linguagem jurídica em momentos em que tal se faz desnecessária. Que aliena as massas e afasta-as do convívio jurídico, que age de acordo com preceitos políticos e posicionamentos sociais! Sim, meritíssimo, NÃO HÁ IMPARCIALIDADE! Julgador imaculado, sagrado, o salvador do Direito?! Falácias, falácias, falácias! Todas elas! Chega a ser engraçado, engraçado e triste, sim, triste! Um espetáculo de horror, imaginar que um ser humano pode se portar indiferente à suas próprias opiniõe; na realidade, OCULTA suas opiniões atrás de um discurso, de preceitos jurídicos por ele escolhidos, como um autômato do judiciário, parte de uma produção em massa de infelizes que--
[Juiz 1] Cale-se...
[Juiz 2] INFELIZES que acreditam ser o Direito uma caixa de pandora, fechada, que jamais deve ser aberta. ABRA-A! EU DIGO! ABRA-A!
[Juiz 1] Mandei calar-se!
[Juiz 2] Não me calo! Jamais! Corte minha língua e com meu sangue escreverei o que penso! Lutarei até o fim contra a ABERRAÇÃO que é este tipo de jurista, de julgador!
[Juiz 1] CALADO! (Ataca Juiz 2 com um soco na barriga)
[Juiz 2] (Curva-se, com a mão no estômago) Haha...HAHAHAH! Não há mais espaço para vocês no mundo! (Levanta-se) Na sociedade! Pra fora com esta abominação jurídica perpetuada nas academias!
[Juiz 1] CALE-SE! (Bate no rosto de J2)
[Juiz 2] (Cai ajoelhado, rindo de forma doentia) Encare-me nos olhos! ENCARE!

Juiz 1 desvia o olhar, repetindo para si mesmo 'cale-se, cale-se...'

[Juiz 2] Você não pode, não é?! Abra a caixa, eu digo! Permita que possamos analisar o conteúdo dela! Libere no mundo o que está na caixa selada e lacrada do Direito! ANALISE-A! ABRA A CAIXA DE PANDORA!
[Juiz 1] CALE-SE, CALE-SE! AGORA! *ajoelha-se no chão e começa a dar socos no rosto de J2* CALE A BOCA!

A Cena prossegue, com Juiz 2 rindo, enquanto toma uma saraivada de socos, até que estes começam a cansá-lo, e a vida se esvai aos poucos.
Juiz 2, morto, cala-se, mas Juiz 1 continua a surra por alguns instantes.
Ao final, ele fica ali, ajoelhado, respirando ofegante. Levanta-se, ajeita o terno e pega o processo.

[Juiz 1] ...A lei é clara neste caso. Permanece o Espírito das Leis.

J1 sai andando, sumindo de cena, deixando J2 caído no chão.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Liberdade




Por: Paul Éluard

tradução
Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira



Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome

Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome

Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome

Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome

Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome

Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome

Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome

Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome

Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome

No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome

Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome

No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome

Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome

Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome

Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome

Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Museus como espaços de utopias e heterotopias


Maria Meire de Carvalho
(Doutora em História pela UnB; professora da Universidade Federal de Goiás, Campus Cidade de Goiás)

Texto apresentado na VI Semana Nacional de Museus - Museus como agentes de mudança social e desenvolvimento. Museu das Bandeiras, Cidade de Goiás, Maio de 2008.




O uso dos domínios do espaço e do tempo e como eles foram operacionalizados na materialidade museológica é o meu foco nessa reflexão. Para tanto me enveredo a pensar o poder das utopias e das heterotopias e como elas operam perante as mais distintas culturas carregadas de idéias/imagens/valores/conceitos/representações que formam o imaginário social.
A palavra utopia provém do grego, e é composta pelos termos topos, que significa lugar, espaço e pela partícula de negação u, que teria em sua composição um significado de “não lugar”. O termo heterotopia, é igualmente formado por topos (lugar, espaço) e hetero (outro), portanto, “outro-lugar”. (REIMER, 2004:113). Assim, a categoria "heterotopia abre novas perspectivas e possibilidades na construção de outros lugares, contra-lugares históricos em meios a lugares de injustiça, exclusão e exploração, e viabiliza também tecer e vivenciar alternativas ante a crise generalizada do atual mundo globalizado” (2004:114). As heterotopias por sua vez nos ajudam a repensar, a re-inventar os espaços que são constituídos/constituidores da organização do poder, da cultura e das demais organizações que criaram/inventaram/privilegiam determinados artefatos da cultura material ou das manifestações da cultura imaterial em detrimento de outras culturas.
Trato desses aspectos na perspectiva apontada por Michel Foucault nas obras: Ditos e Escritos: estética, na literatura, pintura, música e cinema (2006) e em As Palavras e as coisas (1992), com o intuito de visualizar as percepções que designam posições que ligam vários espaços a um espaço usual. Para análise das categorias de representações sociais e de imaginário social, utilizo as reflexões de Denise de Jodelet, na obra Representações sociais (2001) e para a categoria de imaginário utilizo as concepções de Cornelius Castoriadis, em A instituição imaginária da sociedade (1982).
Busco aporte nessas categorias conceituais com o intuito de compreender a ordem simbólica das representações que permeia o mundo social. Nesse raciocínio é importante ressaltar que as representações sociais são,
Sempre representação de alguma coisa (objeto) e de alguém (sujeito). As características do sujeito e objeto nela se manifestam; a representação social tem com o objeto uma relação de simbolização, (substituindo-o) e de interpretação (conferindo-lhes significações). (Jodelet 2001:27-28)



Assim, vê-se que a representação social é fluída, dinâmica e compartilhada socialmente como formas de saberes e fazeres; as representações podem também instituir uma modelização do objeto com suas práticas. Nessas condições, as representações sociais servem para agir sobre o mundo e o outro, numa intrínseca relação de poder. Mas, como salienta Cornelius Castoriadis (1982:13), “toda configuração de uma realidade social passa pelo simbólico, mas não é o reflexo do real”, pois para Castoriadis, o imaginário não é a imagem de alguma coisa, mas sim a “criação incessante, indeterminada (social-histórica e psíquica) de figuras, formas e imagens”. É preciso reafirmar que os sentidos que permeiam o imaginário não são hegemônicos e isso permite que alguns discursos sejam esquecidos e outros reafirmados, portanto, os museus estão repletos dessa “política de esquecimentos” e de reafirmações.
E os museus como espaço de afirmação e negação de sentidos se faz pelas “utopias como posicionamentos sem lugar real, mas que são posicionamentos que mantém com o espaço real da sociedade uma relação geral de analogia direta ou inversa. [...] De qualquer forma, essas utopias são espaços que fundamentalmente são essencialmente irreais”. (FOUCAULT, 2006:414-415). Já, “a heterotopia tem o poder de justapor em um só lugar real vários espaços, vários posicionamentos que são em si próprios incompatíveis” (idem, 2006:418). Foucault utiliza o conceito de heterotopia – outros lugares – como contraposição da utopia - lugares reais -, uma vez que as heterotopias são vivenciadas em todas as sociedades de todos os tempos, em processos sócio-culturais diferentes ou opostos. Segundo Reimer (2204:114), a heterotopia pode ser “lugar de resistências, liberdade, a heterotopia possibilita outras realidades sociais que se diferem daquelas que somente dominam e oprimem. Essa reflexão se estende para a operacionalização dos discursos e das coisas, pois segundo Foucault, enquanto,
As utopias consolam, porque se não dispõem de um lugar real, desabrocham, contudo, num espaço maravilhoso e liso; [...] As heterotopias inquietam, sem dúvida porque solapam secretamente a linguagem [...], que a utoriza “manter juntos” (ao lado e em frente umas das outras) as palavras e as coisas. (FOUCAULT, 1992:7-8)

As reflexões em torno das heterotopias nos alerta para o caráter ilusório dos posicionamentos da vida humana, uma vez que as heterotopias são:
[...] todos os outros posicionamentos reais que se podem encontrar no interior da cultura estão representados, contestados ou invertidos, espécies de lugares que estão fora de - todos os lugares, embora eles sejam efetivamente localizáveis. (FOUCAULT, 2006:415)

Outras reflexões convergem para os “regimes de espacialidade”, discussão realizada pelo filósofo Carlos José Martins (2002) em Utopias e heterotopias na obra de Michel Foucault – pensar diferentemente o tempo, o espaço e a história. Para o autor,
Existem as heterotopias do tempo que se acumulam ao infinito, por exemplo, os museus e as bibliotecas. Museus e bibliotecas são heterotopias nas quais o tempo não cessa de se acumular e de se empilhar até o cume de si mesmo. [...], a idéia de constituir um lugar de todos os tempos que seria, ele mesmo, fora do tempo e inacessível à sua moderdura [...] O museu e a biblioteca são heterotopias que são próprias à cultura ocidental do século XIX. (MARTINS, 2002: 97-98)

As heterotopias nos ajudam a pensar o espaço efetivamente vivenciado, concreto e que contém ao mesmo tempo elementos da representação simbólica que permite a construção de outros lugares, já que ela abre novas perspectivas e possibilidades para se construir outras experiências.
Mas, em muitos espaços museológicos o que se vê é um esforço em organizar e também em criar “um tipo de acumulação perpétua”, repleto de “regimes de verdade” que tornam o espaço dos museus como disseminadores de “regimes de espacialidades” que armazenam “verdades” sobre os acontecimentos do passado. Definições que passaram a ser sacralizadas e disseminadas como verdade unívoca, num repouso temporal imortalizado.
Questiono essa acumulação estável dos museus, como aquele que tenta congregar todas as experiências das culturas em uma única imagem que muitas vezes reduzem e minimizam práticas, fazeres e saberes, num esforço de ordenar e de “ensinar a interpretar” todas as culturas sobre um único prisma.Todos esses elementos citados por Foucault como “códigos fundamentais de uma cultura”, nos remete a re-pensar essas culturas como códigos de linguagem. Desse modo, indago: onde, como e com qual interesse político estão sendo construídas as heterotopias museológicas como espaços de reconstrução de memórias?


Referências Bibliográficas

CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
FOUCUALT, Michel. Microfísica do poder. 12 ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1992.
________. Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.
_______. Ditos e Escritos: estética, na literatura, pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
JODELET, Denise. Representações Sociais. Rio de Janeiro, Editora da UERJ, 2001.
MARTINS, Carlos José. Utopias e heterotopias na obra de Michel Foucaul: pensar diferetemente o tempo, o espaço e a história. In: Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A, 2002, p, 85-98.
REIMER, Richter Ivoni. Construção de heterotopias socioculturais nas obras de comunidades judaico-cristãs. In: Revista Caminhos. Goiânia: UCG, v. 3, n.1, Jan/Jun. 2004, p. 113- 122.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Curso Direito e Arte करसो दिरेइतो इ अर्ते


UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
CAMPUS CIDADE DE GOIÁS
CASA WARAT GOIÁS

CURSO DIREITO E ARTE


Curso ministrado por: Marta Gama, mestre e doutoranda em Direito/UnB
Dias: 15 a 20/06/2010
Carga horária: 25 horas extracurriculares
Local: Campus Cidade de Goiás/UFG
Inscrições gratuitas: Secretaria do Campus da UFG Cidade de Goiás ou pelo e-mail: eduardofdufg@yahoo.com
Mais informações: http://casawaratgoias.blogspot.com/

Programação do Curso:
15 de Junho:
8 - 10h Direito e Arte. Apresentação da proposta 2 horas
10:20- 12:20h Oficina de práticas estético poéticas 2 horas
16 de junho
8- 10 h O paradigma epistemológico moderno. 2 horas
10:20 -12:20h Oficina de práticas estético poéticas 2 horas
17 de junho
8-10h A razão sensível 2 horas
10:20 -12:20h Oficina de práticas estético poéticas 2 horas
18 de junho
8-10h O conhecimento jurídico e a sensibilidade. Ampliação dos horizontes
interpretativos. 2 horas
10:20-12:20h Oficinas de práticas estético poéticas 2 horas
20 de junho
8-10h O conhecimento jurídico e a sensibilidade 2 horas
10:20 -12:20h Oficina de práticas estético poéticas 2 horas
19-22h Mentes Livres 4 horas

domingo, 23 de maio de 2010

Fogo, barro, sangue e fé


Por Eduardo Rocha


No último sarau Mentes Livres, fizemos um ritual. Depositamos em um tacho de barro palavras de fé, sangue e temperamos tudo com fogo. Fogo, barro, sangue e fé. Essa é a essência do ritual da origem. Mistura que está presente no mito de toda a criação. O homem, já diria os hebreus, é barro, mas não apenas. É fé divina; é fogo que queima e cria; é sangue, elemento exclusivamente humano, que nos diferencia dos Deuses. Barro misturado com a fé, por meio do fogo, que gera o sangue. Junção do improvável, que situa o homem entre o possível e o impossível.
Como expõe Humberto de Campos, em o “Monstro”:



“Pelas margens sagradas do Eufrates, que fugia, então, sem espuma e sem ondas, caminhavam, na infância maravilhosa da Terra, a Dor e a Morte. Eram dois espetros longos e vagos, sem forma definida, cujos pés não deixavam traços na areia. De onde vinham, nem elas próprias sabiam. Guardavam silêncio, e marchavam sem ruído olhando as coisas recém-criadas.
(...)
Em passo triste, a Dor e a Morte caminham, olhando, sem interesse, as maravilhas da Criação. Raramente marcham lado a lado. A Dor vai sempre à frente, ora mais vagarosa, ora mais apressada; a outra, sempre no mesmo ritmo, não se adianta, nem se atrasa. Adivinhando, de longe, a marcha dos dois duendes, as coisas todas se arrepiam, tomadas de agoniado terror. As folhas, ainda mal recortadas no limo do chão, contraem-se, num susto impreciso. Os animais entreolham-se inquietos e o vento, o próprio vento, parece gemer mais alto, e correr mais veloz à aproximação lenta, mas segura, das duas inimigas da Vida.
(...)
- E se nós próprias fizéssemos, com as nossas mãos, uma criatura que fosse, na terra, o objeto carinhoso do nosso cuidado? Modelado por nós mesmas, o nosso filho seria, com certeza, diferente dos auroques, dos ursos, dos mastodontes, das aves fugitivas do céu e das grandes baleias do mar. Tra-lo-íamos, eu e tu, em nossos braços, fazendo do seu canto, ou do seu urro, a música do nosso prazer... Eu o traria sempre comigo, embalando-o, avivando-lhe o espírito, aperfeiçoando-lhe à alma, formando-lhe o coração. Quando eu me fatigasse, tomá-lo-ias, tu, então, no teu regaço... Queres?
(...)

Horas depois, possuía a Criação um bicho desconhecido. Plagiado da obra divina, o novo habitante da Terra não se parecia com os outros, sendo, embora, nas suas particularidades, uma reminiscência de todos eles. A sua juba era a do leão; os seus dentes, os do lobo; os seus olhos, os da hiena; andava sobre dois pés, como as aves, e trepava, rápido, como os bugios.
O seu aparecimento no seio da animalidade alarmou a Criação. Os uros, que jamais se haviam mostrado selvagens, urravam alto, e escarvavam o solo, à sua aproximação. As aves piavam nos ninhos, amedrontadas e os leões, as hienas, os tigres, os lobos, reconhecendo-se nele, arreganhavam os dentes ou mostravam as garras, como se a terra acabasse de ser invadida, naquele instante, por um inimigo inesperado.
Repelido pelos outros seres, marchava, assim, o Homem pela margem do rio, custodiado pela Dor e pela Morte.”



Dor e Morte, sangue e barro, estão juntas na origem do mito de toda criação, mas precisam do fogo e da fé, como elemento unificador. No último Mentes Livres vivenciamos um ritual. Entregamos nosso sangue ao barro e ao fogo, liberando a fé. Não foi uma tentativa de retirar esse ingrediente da nossa concepção. Não é possível qualquer criação sem esse toque divino. É ele que permite que do inanimado, barro, surja a pujança do sangue. Foi uma tentativa de liberar a fé, para que ela volte a nos constituir, aproximando-nos, assim, mais da vida, do sangue, do que da morte, do barro.
Não é negar a importância da Morte. A Morte, ao lado da Dor, é elemento obrigatório para a vida. Permite o eterno começo. Precisamos da Morte para nos desprendermos e voltarmos a iniciar, para mostrar que tudo possui um começo e um fim, que nada é imodificável.
A Morte, ao lado da fé, permite que a vida se recrie a cada instante. O problema é quando o barro, mal temperado pelo fogo, aprisiona a fé, gerando sangue limitado pelas barreiras da morte. Quando isso ocorre, o sangue e a fé se restringem ao horizonte sombrio da impossibilidade, do medo, da imutabilidade, do posto. Tem-se fé e sangue para viver, mas na frente só se vê o barro.
O último Mentes Livres foi o início, a afirmação de um compromisso, a tentativa de um novo começo. Começo que retira o barro do nosso horizonte. Origem que consegue equilibrar a Morte e a Dor, gerando uma combinação criativa entre barro, sangue, fogo e fé. Assumiu-se o impossível como condição de vida. Valorizou a loucura como condição de sanidade. Resgatou o sonho como atitude constitutiva. Assumiu o surrealismo como postura epistemológica. Surrealismo Jurídico? Não apenas. Afirmação do surrealismo como postura política, vivencial.
É preciso, constantemente, voltar aos quatro componentes da criação para que se possa manter a vida. Essa seria a arte do eterno começo, freqüente junção do barro com o sangue, com o fogo e com a fé. Como alerta Humberto de Campos, quando esses elementos perdem o equilíbrio, quando a Dor e a Morte chegam ao impasse indissolúvel, resta apenas um elemento: “o nada”.


“Abrindo os braços, a Dor lançou-se contra o monstro, apertando-o, violentamente, com as tenazes das mãos. A água, que o corpo continha, subiu, de repente, aos olhos do Homem, e começou a cair, gota a gota... Quando não havia mais água que espremer, a Dor se foi embora. A Morte aproximou-se, então, do monte de lama, tomou-o nos ombros, e partiu...”

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Cântico negro



Por: José Régio










"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Lá fora de Realidade é que tem graça


Por Fernanda Rezek


Eu moro em Realidade. Eu nasci em Realidade. Não é fácil de se viver em Realidade, não. Tiro férias lá fora, amiúde. Não sempre que eu quero; mas sempre que eu posso. Lá fora é terra de ninguém. Realidade é exacerbadamente sistematizada; diria que cruelmente burocrática. Tem muito preconceito em Realidade; muita maldade; julgamentos vãos; pessoas robotizadas; vazias de amor. Cantar no trânsito, em Realidade, desperta olhares hostis. Lá, as pessoas são egoístas, egocêntricas; parece terem medo umas das outras. São pontuais pra não demonstrarem o desprezo pelo tempo do outro; são polidas pra não escancararem o desrespeito pelo outro humano; são caridosas pra que ninguém perceba que o que realmente importa é sua própria fortuna. Realidade é assim; cinza. Julga-se o amor, pune-se a espontaneidade, e fingir a vida é muito mais importante que viver. Sair de Realidade causa uma sensação de bem estar inexplicável. Parece que o ar volta aos pulmões. Lá fora você escolhe as cores. Seus músculos não sentem dor no fim do dia. Você sorri de verdade. Chora. Lá, não se reprime a alma. As auras brilham com mais força, e o vento sopra com mais leveza. Lá fora é sempre surpreendente; não tem relógio lá, nem trânsito do meio dia, não tem arma de fogo, violência nenhuma. Eu moro em Realidade. Eu nasci em Realidade. Mas minha casa mesmo, é lá fora. E lá fora ... é bem aqui dentro de mim.

Programação primeiro semestre

domingo, 9 de maio de 2010

Para os mentes-livres


Por: Rafael Ribeiro Rubro


Sarau saralma.

Faz sentir o sentido arrefecido.

Sente-se o insentido.

Podemos sentir o corpo,

Que, durante a semana de máquina,

Não temos...

Não percebemos.. .

Como não se percebem seus corpos os robôs operários...



Cheira-se o toque melódico da mão,

Que canta...

Cadências descem das estrelas desse tipo,

Que nos brindam com luz:

Sabor de cachoeirinha pequena...

Colibris que não vejo,

Vejo sua canção inexistente. ..

Mas tangentíssima ao endocárdio...



Homens e mulheres quanto aos seus sexos, não:

O ser humano se sente.

Ou melhor:

Homens e mulheres, sim,

Enquanto humanos que são,

Havendo respeitadas as riquezas,

Que costumam nomear: diferenças.



Sentiram-me os olores...

E mentes-livres disseram-me que tenho cheiros...

... mármore

Orvalho

Paz

Folha

Roupa no varal que, após secada pelo sol, a gente vai lá, abraça e cheira

Poesia

Carvalho

Água de regato...



Senti-lhes os olores...

E disse-lhes que tinham cheiros...

...gelatina de framboesa

Bala de cereja

Telha de telhado molhada e musgo encharcado

Picolé de groselha

Palha

Lençol limpo que se colocará na cama, quando do momento da muda

Pétala

Toalha macia, fofa e felpuda, após lavada e seca...



I

Já sentiste estes aromas?



II

Perfumar a vida é o abraço com que a agarramos.



III

(Sair mais cedo do forno é não estar pronto

Para ser biscoito).



IV

Ser nu e cru

É ser horta sadia da roça,

Em que a gente mesmo planta as verduras...



V

Libertar...

Sei lá...

Mas eu amo os passarinhos. ..





Villa Bôa de Goyaz, XI-IV-MMX (3:27 da madrugada)

sábado, 8 de maio de 2010


Abaixo segue o link para o texto "Justiça, sentimentos e direitos humanos" publicado por mim, Eduardo Rocha, e por Márcia De Fazio na revista Captura Críptica.

http://www.ccj.ufsc.br/capturacriptica/documents/n2v1/parciais/19.pdf

Breve trecho do texto:

"Se a razão não é essa capacidade intrínseca a todos os homens o que ela seria? Rorty explica que se trata da capacidade de cada indivíduo concatenar coerentemente o seu próprio conjunto de crenças, sendo racional, plausível ou óbvio o que cada ser consegue assim enxergar. (RORTY, 1997, p. 246)

Surge então a necessidade de uma resposta que possa abarcar a complexidade humana: ser que pensa, sofre, tem emoções e sentimentos. O que se compartilha entre iguais – e Kant chamou de obrigação moral – não é uma imposição do espírito, natureza humana ou racionalidade, mas sim a “(...) a capacidade de sentir compaixão em relação à dor de outros”. (RORTY, 2005, p. 211; 2005b, p. 43 e ss.)

Os pragmatistas desconstruíram a universalidade da razão, porém,mesmo assim, almejam uma sociedade em que todos tenham capacidade de se desenvolver e respeitarem-se mutuamente 19 . Ao desconstruírem a razão, valorizaram a capacidade humana de sentir dor, assim, valer-se-ão dos sentimentos na construção do seu projeto político. (RORTY, 2005, p. 207)

O condicionamento sentimental, a educação sentimental torna-se muito mais importante para o desenvolvimento de uma cultura humanista do que a busca pelo conhecimento. É na sensibilização, na possibilidade de se ampliar “quem somos nós”, “nosso tipo de gente”, “gente como nós”, que está a aposta pragmática.

Sensibilizar para ampliar direitos, essa é a aposta pragmática. A dor e o sofrimento como instrumentos contra as brutalidades humanas e em favor da ampliação da lealdade entres os grupos."