domingo, 3 de abril de 2011

Dragones waratianos



Dragones waratianos

Publicado na 29 edição do Jornal Estado de Direito 
Por Leopoldo Fidyka[1]

  
“La democracia es un devenir cultural, multiexpresivo y no sólo un conjunto de garantías jurídicas”
 “Precisamos entender que vivir con plenitud nuestras pasiones, hace de la vida una actividad política creadora”
 “Ya no basta explicar el mundo, si ese conocimiento, no mejora nuestras condiciones de  existencia, nos deja más creativos y nos aproxima de forma solidaria a los otros”
 Pequeñas pinceladas que retratan fielmente a Luis Alberto Warat un profesor de alma y un alma privilegiada llena de luz y esperanza.
 Un apasionado por el saber y la sensibilidad. Un explorador de tiempo completo. Logró colocar la afectividad en medio del derecho y partir de ahí generar torrentes de complicidades con la vida.  Sintonizaba con intangibles poco frecuentes en la academia, con notas musicales que aún no están escritos en los pentagramas del saber instituido pero que tanta falta nos hace descubrir.
 Fue un impulsor de muchas disciplinas que marcaron cambios sin retorno en el pensamiento jurídico. Es interesante ver como significó tanto para tantas personas de diferentes latitudes y generaciones.

Tchello DRC
Personalmente, tres momentos marcaron mi relación con él: cuando fue mi profesor en Buenos Aires allá por la década de los 80 donde me ayudó a sentir que otro derecho era posible; el reencuentro que tuvimos después de tantos años, momento donde procuré expresarle todo lo que me había significado; y la creativa etapa de la construcción de la Casa Warat.
 La Casa, ese hogar de la razón sensible, entendida como un espacio nómade para la expresión y la afectividad, ámbito de ensayo e intercambio orientado a mejorar la calidad de vida y de la convivencia, intentando pensar el mundo desde otros lugares que impliquen puntos de fuga de la razón cienticifista, que tiene sus ramas en distintas ciudades de Brasil. A través de ella vivenciamos que la conjunción arte, derecho y vida es posible y también muy necesaria.
 Entre todos los proyectos que fuimos realizando en Buenos Aires: cafés filosóficos, cinesofías, talleres, clases abiertas, cabarets, surgió la idea de tomar de toda su extensa obra, cuatro de sus libros para releerlos, discutirlos, revitalizarlos y extraer fragmentos significativos, así surge “Dragones, purpurinas y esperanzas” una publicación que acabábamos de terminar y de pronta aparición.
 Resultó un ejercicio maravilloso e inolvidable, juntarnos periódicamente a hacer esa tarea, donde se lo veía, amigarse, asombrarse y pelearse con sus propios textos. Apelaba al fragmento como algo renovador, que eludía estereotipos y lugares comunes.
  Tenía una capacidad asombrosa para conectarse con los otros y una imaginación maravillosa e inagotable, Quijote para muchos, comparé sus búsquedas con la de los Tupi-Guaraní, un pueblo en éxodo, que vivía permanentemente soñando el Yvymarae´ÿ, la prodigiosa “Tierra sin Mal” donde el maíz crecía solo y los hombres eran inmortales.
Esto me recordó a su inquieto pensamiento, a su nomadismo con fuertes raíces, y a sus enfoques que nos provocaban para llevarnos  permanentemente por territorios de dragones, desconocidos, pero que paradójicamente los reconocíamos instantáneamente en nuestros corazones.
Nuevos territorios, nuevos lugares, nuevos caminos, espacios de conexiones mágicas, nunca quiso discípulos sino amigos y compañeros de ruta, para recorrer juntos distintos nodos llamados ocasionalmente, derecho, saber, arte, deseo o pedagogía que se articulaban y entretejían permanentemente.
Nos decía: “No basta hablarle a los alumnos que es necesario pasar con armas y equipajes para el lado de los hombres. Es preciso darles una bengala que les permita hacer ese viaje. Pero la bengala no es nuestra palabra. Ella está en la fuerza vital que pueden redescubrir en ellos mismos”,  poniendo en práctica una pedagogía más centrada en los cuidados que en la trasmisión de verdades.
Estoy agradecido por su amistad, por mostrarme un camino, por invitarme a transitar los senderos poéticos de los sueños, de la creatividad, de los afectos y sobre todo por señalarnos en un mundo con tanta indiferencia, una cartografía hacia esa “Tierra sin Mal”.
  Nuestra misión no es sólo recordarlo, sino tomar sus banderas, regar sus flores y abonar la tierra, para que tras nuestros pasos, nuevas semillas sigan floreciendo bajo la luz de sus palabras y el canto de su poesía.
 Buenos Aires, verano del 2011.







[1] Abogado (UBA), Magíster en Dirección y Gestión Pública Local (UIM, Universidad Carlos III, Madrid – Universidad Internacional Menéndez Pelayo, España). Miembro fundador de la Casa Warat Buenos Aires, coordinador del Blog LAW y autor junto a Luis Alberto Warat del libro “Dragones, Purpurinas y Esperanzas”  Bs. As 2011.

segunda-feira, 28 de março de 2011

CINEFILIA, um projeto Casa Warat Goiás


Apresentação do CINEFILIA, projeto de Cinema da Casa Warat Goiás. Trailer produzido por Paulo Dante.

terça-feira, 22 de março de 2011

Ata literária da fundação Casa Warat São Paulo

ATA LITERÁRIA (OU PEQUENO-GRANDE MANIFESTO) DE FUNDAÇÃO DA CASA WARAT SP
São Paulo, 12 de fevereiro de 2011.
Numa ilha verde em meio à visão de uma metrópole opressora, Leopoldo, o irmão argentino mais brasileiro e, quem sabe, baiano, Jaque e Levy, duas individualidades que se somam nas diferenças, Mariana e André, duas diferenças que se multiplicam em infinitas possibilidades de cores, amores e ideias, reuniram-se com uma única certeza: de que uma avenida não é feita apenas de concreto, mas também de amor, loucura e poesia.
Cansados de se sentirem sozinhos em meio à multidão indiferente, do esquecimento dos outros, das reificações e imediatismos, das artificialidades e automatismos, da renúncia de si, que contamina as relações entre as pessoas com um imperativo de pressa.
Cansados das passividades, de um desespero intoxicante, da falta de ar, de um cotidiano cinza, e dos conselhos que apontam que a saída está na aceitação das avenidas anestesiadas de normas e regras, que conduzem a um agir no qual se esquece da vida que se sente.
Cansados da papelização das pessoas, da processualização das dores, da protocolização da vida, pensaram na utopia de uma ilha flutuante que pode chegar a muitos portos, por muitos caminhos. Uma ilha que pode deixar de ser ilha e plasmar territórios de música, arte, intervenções urbanas, para produzir lugares livres que se fundam na liberdade criativa dos outros.
Aquele lugar onde esse pequeno grupo se reuniu era também um oásis. Um oásis iluminado a velas que desapareciam no ar. Um oásis mágico, em que a selva de concreto, de repente, tornara-se verde. Lá, incrivelmente, fazia frio em pleno verão. E lá dançaram até catala e trégua, e brindaram com um drink de fernet portenho.
E foi lá, num rizoma tão fecundo, que essa Casa, mais uma Casa nômade, começou a brotar.
Lembraram daquela cidade cinza recortada, daquele lugar que pedia socorro ao mesmo tempo que mostrava que todos estavam SÓS.
E nele colaram flores coloridas, muitas flores. E viram cronópios, aqueles bichinhos verdes e úmidos, parecidos com micróbios, que se empolgam ao cantar e são atropelados, perdem o que levam nos bolsos e deixam as lembranças soltas pela casa... E quando chegam numa cidade desconhecida, os trens já partiram, os táxis não querem levá-los, chove a cântaros, e mesmo assim eles sonham que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados, e acordam felizes.
Viram que a cidade gris poderia ter muitas cores, poderia ter novamente realçadas as suas sutilezas.
Viram que nela poderia haver abraços. Repararam que há beijos bem em frente às Arcadas e se lembraram que é sim possível inscrever o amor no poder.
Viram que a luta continua.
Perguntaram-se, então, do porquê do oásis. Não seria fechado demais? Exclusividade demais? Não seria um encastelamento, um ressoar contido? Não estaria, assim, comprometido o poder emancipatório das idéias nele (trans)formadas?
Foi assim porque a Casa Warat é um espaço mágico. Não foram até o oásis, ele simplesmente formou-se diante dos olhos esperançosos, sem que se dessem conta. Foi assim, mágico, porque é assim que é. E foi assim ao longo de quatro dias em que estiveram juntos.
Porque foram dias em que viveram aquela mesma cidade cinzenta de sempre, de uma forma tão intensa, que aqueles quatro paulistanos sentiram-se noutra cidade. E, ao final, todos tinham incrivelmente a mesma sensação: eram eles que viajavam, e não o seu querido irmão argentino, que revia São Paulo depois de tantos anos e a redescobria.
E naquela cidade cosmopolita viveram o Brasil e nela deram a volta ao mundo em 04 dias.
Sim, foi mágico, porque assim que é. Mas disso não se fala, sente-se. Vive-se e ponto. E é isso que eles querem mostrar.
Foi mágico, porque na cidade do caos, os caminhos subitamente apareciam, as vagas para estacionar brotavam logo à frente. Os semáforos estavam sempre amarelos. O material de trabalho simplesmente aparecia, assim como as idéias e os sentimentos em comum. Tudo fluía. Até a esperança aparecia - não aquela de que falava Cortázar, mas sim a do insetinho verde que costumam dizer que traz sorte.
Foi num oásis, porque na cidade do caos é necessário buscar um lugar em que se possa, simplesmente, parar.
Parar para respirar e lembrar que se têm pulmões que se podem encher profundamente de ar. Para sentir-se a si mesmo. Para ter paciência e viver um outro tempo, um outro ritmo. Parar e lembrar de sentir o corpo que se tem. E que ele pode se relacionar com os outros num sorriso, num abraço, em palavras de cuidado, num beijo, num olhar fraterno. E até mesmo num silêncio. Parar porque todos estão aqui e são indiferentes uns aos outros. E entre eles é como se houvesse barreiras, degraus invisíveis, que se proliferam, que contaminam, que afastam e anestesiam.
Somente num oásis, vivendo um outro tempo dentro do tempo, é que se torna possível olhar para dentro de si e dos outros.
Mas que fique claro que esse oásis, ou ilha flutuante, está aberto a quem quiser. A quem puder se deixar levar pelos sentimentos verdadeiros da essência humana. A quem conseguir deixar de lado toda essa prisão metódica que nos prende feito escravos... Entubando toda a cor descoberta e existente em potes hermeticamente fechados.
Queremos, então, o estardalhar dos vidros. Que respinguem as cores mil em cima dos mapas rasgados da cidade que não pára. Que nos faça sangrar o sentimento verdadeiro, inundando o calar silente pelo grito d’alma. Queremos expandir o espaço, ampliando as dimensões daquilo que se sente, daquilo que se vê. Do abraço.
Esse oásis, ou ilha flutuante, não se encerra em si mesmo. Deve expandir-se para além dos limites que o tornam oásis. Deve ampliar-se para além-mar de nosso mundo, de nossas barreiras. Deve inundar de um verde vivo, pulsante. Expandir-se para além dos limites desse delírio, utopia, sonho.
Mas com o que sonhamos?
Sonhamos com um cotidiano em que podemos deixar de ser famas para nos assumirmos como cronópios, seres desorganizadores, que vivem não de lembranças e regras rígidas que, cartesianamente, ordenam uma vida de mesmices seguras, mas de impulsos verdadeiros, do sentimento bruto e vivo.
Sonhamos em medir o tempo com o cuidado que merece o tempo – não o cuidado de dar corda em um relógio, mas com o cuidado de quem aprecia uma alcachofra folha por folha e, ao final, não vê encerrado um ciclo, terminado um caminho ou morta a esperança, mas sim um delicioso coração, que se pode comer com azeite, vinagre e, por que não, com chimichurri!
Sonhamos com uma pedagogia que rechace toda forma de reprodução de poder. Uma pedagogia do novo que não discrimina a diferença e que não faz do ensinamento egoísta uma finalidade no interior de relações de adulação fingida, de criatividades mortas, de discursos fundados no morrer cotidiano da esperança.
Desejamos o retorno ao desejo como fundamento para uma educação que não ordene verdades enclausuradas, mas que sussurre a libertação das verdades instituídas. Uma permanente tensão das fronteiras do saber rumo não a uma vulgarização do conhecimento, mas a descobertas de novas potencialidades, que podem estar silentes dentro de cada um de nós, ou, quem sabe, no sonho de um irmão ou na afetação estética provocada por uma irresignação de um fato da vida.
Desejamos conhe-ser diferente.
Na abertura ao diferente, que supera a previsibilidade pré-estabelecida e a segurança enjaulada. A possibilidade de surpreender-se no outro e nele se diluir. Permitir o seu devir em nós mesmos, de modo a garantir não uma experiência segura ou assegurada, mas correr o risco da suspensão de si mesmo.
Na abertura das cascas sedimentadas na desolação. No cair dos muros construídos, na redescoberta da essência humana. E que tal espírito vivo nos oriente frente às tragédias de um mundo doente de coração. Que nos permita enxergar, pois, o sentido para o prolongar da vida, de forma autêntica, sem a diluição ilusória do cotidiano.
E, finalizando (ou começando?), vamos “todos juntos!”... seguindo... fluindo... amando... buscando... tentando... Venham todos! Vamos juntos no bloco do “Custa, mas vai!”, que de forma carnavalizada e paulistana, parece sintetizar o nosso desafio e aquilo que nos une:

"Nós somos na Terra o grande milagre do amor:

E, embora tão diversa a nossa vida,

Dançamos juntos no carnaval das gentes,
Bloco pachola do "Custa mas vai".
E abre alas que eu quero passar!"
(Mário de Andrade, CLÃ DO JABUTI)


terça-feira, 8 de março de 2011

Dispenso essa rosa

No dia 8 de março, eu dispenso qualquer rosa.
Retirado do blog da Nalu


Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: “parabéns”.
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Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.
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Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.
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Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade – da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.
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A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.
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Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.
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Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?
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Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso – onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado,apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.
A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.
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Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.
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Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.
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Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Warat em Video





Imperdible entrevista al profesor Luis Alberto Warat, publicada por Direito do Estado -o primer portal multimídia jurídico do Brasil -

Temas:


> Historia personal

> Formación intelectual


> Actividades profesionales y académicas

> Líneas de investigación

> Visión de futuro




Link => http://www.direitodoestado.com.br/dm.asp?num_id=21



Aporte de Jaqueline Sena - Casa Warat SP


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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Seleção de artigos em homenagem a Luis Alberto Warat


 

O Jornal Estado de Direito vai prestar uma homenagem ao mestre da carnavalização jurídica, Luis Alberto Warat, elaborando uma edição especial no mês de fevereiro do presente ano, 29ª edição do periódico. Para tanto, venho por meio deste e-mail pedir a sua colaboração a fim de que possa estender o convite aos professores que desejarem escrever artigo inédito nas temáticas trabalhadas pelo professor Warat. 
 
A seleção dos textos inéditos levará em consideração a formação acadêmica dos autores, a criatividade na elaboração do tema, linguagem acessível. Conter entre 3500 a 5000 caracteres que representa a soma de letra mais espaço. O prazo para remessa é dia 5 de fevereiro, a divulgação dos autores que participarão da edição de homenagem será feita no sitewww.estadodedireito.com.br, os textos que não forem selecionados para a edição impressa do Jornal serão avaliados e publicados no mesmo site.
 
Que possamos cultivar o legado deixado pelo Mestre Warat, pessoa que soube olhar o direito na sua essência, com a sensibilidade e necessária criatividade. Desde já saliento que o trabalho desenvolvido pelo Jornal Estado de Direito é inspirado na história de mestres como ele.
 
Um abraço e vamos em frente.
 
Qualquer dúvida favor me comunicar.
 
 
Carmela Grüne
Diretora do Jornal Estado de Direito
(51) 3246-0242, (51) 7814-4114, Nextel 84*97059
www.estadodedireito.com.br
http://lattes.cnpq.br/0192321192062950

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Sobre Corpo


Por: Nádia Pinheiro
Desenho: Paulo Dante Neto

Se jogar, sem medo de sujar a roupa ou de se machucar... e nesse lançamento, perceber a reação de cada parte sua ao se encontrar com o chão.
Sentir o que acontece com seu dedinho do pé ao mexer outra parte do corpo, ou com seu corpo inteiro quando faz um movimento que até então pensava ser incapaz de fazer.

Tentar algo novo, totalmente fora do normal, do óbvio.

Se relacionar consigo, antes de qualquer outra pessoa. Conhecer no silêncio o seu ritmo, seu tempo, e aí sim partir para o outro, que tem um tempo diferente do seu. Mesmo sabendo o que se deve fazer, cada um tem sua hora, sua vontade, e é aí que o respeito deve aparecer, até que se desenvolva uma sintonia. E você percebe que essa sintonia é tão sintonia, que mesmo de olhos fechados tudo vai acontecendo, e uma dança se formando, assim, sem ser combinada.

Saborear a inigualável sensação do fogo que vai ardendo dentro de si e que quer mesmo é sair, explodir, queimar tudo o que está a sua volta; e você tem a simples e difícil tarefa de segurá-lo, de fazer com que ele continue só ali dentro, NADA DE SAIR! CONTROLA!

Respiração, inspiração, dor, transpiração... essa última principalmente, ela é a resposta a todos os gestos e a toda energia que se consome. Transpirar é ouvir seu corpo dizer que está se preparando, para depois estar quase pronto... quaase. É que na verdade ele nunca estará realmente pronto, há sempre o que aprender, o que absorver, o que buscar.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Manifesto para a constituçao da Casa Warat UPL

Por Luís Alberto Warat


Primer movimento                                                                                










I Existem hoje em vários países da América Latina projetos de desenvolvimento sustentável elaborados com o objetivo de estimular um despertar profundo da consciência de uma cidadania popular, consolidando a democracia social participativa, e recuperando a dignidade de seu povo, promovendo a re-inclusão sócio-política e a integração regional.



Dentro desse ideal se faz necessário e urgente que se apresentem programas de reformulação profunda da educación o Direito (administração da justiça) e as practicas de convivencia e alteridade , que invista na mundialização solidária, na alteridade ética inclusiva, em formas de convivência não violentas nem criminal, como também na concretização de correspondentes políticas públicas e de participação popular que contemplem a construção e implementação de outra concepção do direito e seus mecanismo de administração e resolução de conflitos.

Inclusive, que considera a posivilidade de uma forma jurídica que posa intervir não so na resolução de conflitos instalados, e posa tamben, intervir na facilitação de encontros entre as persoas e nas comunidades com maior qualidade de vida e de convivência.



O que sempre está pendente à margem do poder é o lugar das pessoas, do povo, o lugar dos que transitam e habitam as ruas. O que a gente precisa como imaginário, como realidade e como simbólico; é o que pode chamar-se de fluxos populares de subjetividade. A cor invisível revela, entre outras coisas, como parte de seu arco cromático, que o que está em questão é a representação, que é sempre um modo de sustentar o poder alheio em benefício próprio. A representação, tanto política como jurídica encobre formas opressivas em nome de aspirações igualitárias. A rebeldia popular abrindo espaços para uma nova concepção da política (do poder) e da Justiça (administração do Direito), que faça da emancipação uma aposta em comum.



A diferença do poder que sustenta e fundamenta a coerção estatal dentro de processos de constituição da convivência popular deve fundamentar-se em outra concepção do poder, como um lugar vazio, onde todos possam manifestar sua voz, dando assim lugar a um poder comunitário que não se impõe, mas que é construído enquanto processo coletivo, onde a força desse poder será a democracia, e onde se lute pela abolição das relações de poder e se aposte na fragmentação e atomização da modalidade neoliberal de organização da sociedade.



Apostando na diversidade dos excluídos que reincorporados ao sistema sócio-produtivo não precisam, de nenhum modo, reproduzir, em um sentido inverso o poder do capital. Mais que a ditadura do proletariado é necessário a rebelião dos excluídos que incrementem sua capacidade de aquisição de conhecimentos e técnicas.



A construção de lugares para todos, de opções de convivência sustentável, não se consegue com a produção de grandes acontecimentos, senão vivendo um processo permanente de sensibilidade e criatividade para um mundo novo praticando a democracia participativa e protagônica como cultura de respeito à alteridade e a humildade própria; a verdade como o produto de um sintonizador coletivo. Nesse ponto surge a mediação como posivilidade de fundamentar uma cultura da alteridade, do encontro, e da participação comunitária ,instando a um dialogo fecundo que tende a excluçao (e a paulatina disminuçaoate atinguir a supreçao) das formas de relações violentas , desprovistas de uma contribuçao efetiva do amor para o encontro



Timidamente, nos últimos tempos no Brasil alguns programas de humanização, que dão suporte a várias propostas de capacitação de operadores comunitários de cidadania e direitos humanos, estão sendo gestados vislumbrando um intercâmbio de cultura e também do sistema jurídico vigente, para que os conflitos sejam tratados considerando, acima de tudo, o ser humano envolvido nele. Uma timidez inventiva (que, não obstante, serve como antecedente valioso) que está gerando uma lei nacional de Mediação.



A participação ativa da cidadania popular e arruaceira na construção de outra concepção de Direito que leve até às últimas conseqüências a idéia de um parlamentarismo e uma administração de Justiça na rua não pode dar-se ao luxo de recuperar alguns vícios normativistas. Ela deve focalizar suas preocupações na construção de formas de convivência que fortaleçam a realização dos indivíduos, fortaleçam sua auto-estima, sua dignidade, e ajudem a aprender a escutar o outro, criando condições para desenvolver uma sociedade mental, física e emocionalmente sã. Uma sociedade sensível ao amor e a alteridade (elementos concretos e plausíveis do justo).



A escola e a administração de justiça, na modernidade ,ou condicionadas pelo paradigma da modernidade, se encontram afetadas por uma escalada fanática de um mercado que já se declarava victoriosa ate a cris do neoliberalismo ocurrida a mediados do 2007 ; vitorioso em sua luta por subtrair do homem o que sempre mais apreciou conquistar: a liberdade de fazer eleições e opções e da comunicarse dailogicamente com os outros.



Um mundo cada vez mais trivial atravessado pela incerteza, que exige a construção de um pensamento complexo – de que o Direito não escapa - permanentemente aberto para o imprevisto, o novo, e para as brechas do incerto. Estou falando e declarando a necessidade de uma concepção complexa do jurídico, a qual proponho denominar: uma cultura da Convivência, do encontro, dos Direitos Humanos ou da Mediaçao (a escolha sematica ainda e sedo para efectuarla).



Em outros termos, o que proponho é passar a conceber o devir atual da modernidade como uma pedagogia de convivência ou do encontro,o que posa levar aos homes aleim dos modos de convivência determinados pelo paradigma moderno, seu Estado e seus modos de ejercicio do poder. A convivência o encontro com o outro, a alteridade como objeto do Direito, que é muito mais que indicar o conflito como objeto do direito.



Teremos que apontar uma concepção de Direito que nos ajude, que sirva para a con-viver do melhor modo possível. O direito visto como um modo de satisfação da dignidade e da pluralidade ética. Uma convivência educativa e ética que nos permita trabalhar conjuntamente situações e fatos traumáticos,(denominados em La mediação sin fronteras de catástrofe ) encontrar formas de resistir e superar adversidades entre todos, contando com padres, professores, estudantes, líderes comunitários e populares, trabalhadores, etc. Que possam produzir sentidos, convergências e necessidades de uma construção coletiva e um devir comum para todos.



A convivência está atravessada por um destino de espécie incerta e ameaçadora que precisa de espíritos aptos para compreender os problemas fundamentais (caos de acontecimentos(catásteofes), formas de violência, retrocessos bárbaros onde se mesclam processos econômicos, políticos, sociais, étnicos, religiosos, mitológicos, amorosos).



Espíritos que não podem ser solitários, que precisam estar em estado de alteridade. Uma espiritualidade popular que se oponha a uma educação academicista que não consegue entender nada que escapa a razão que a institucionalização da verdade protocoliza em exclusivo. A sabedoria da existência humana fora da verdade e da justiça; inscrita no nomadismo e no inesperado do homem, do outro e do mundo. O nomadismo, disse Mafessolli, debilita nossas certezas de pensamento. É a semente de nossa autonomia, acrescento.



As Escolas de formação de uma cultura da convivência(Universidades populares UP) podem ser consideradas como formando parte das práticas e objetivos dos Balcões de Direito e dos Escritórios Modelos instalados nas favelas do Rio de Janeiro,nas comunidades carenciadas de Salvador o de Caracas , cujo propósito fundamental é de enfrentar as causas e conseqüências da pobreza, das diversas formas de discriminação,do racismo e da excluão social, com a participação protagonista do povo. Uma participação que inclui inclusive a mútua ajuda para a superação dos traumas e dificuldades que foram marcando a vida pessoal de cada um.



As referidas UP devem tamben preocuparse pelas novas formas de manifestação do racismo e da discriminação: a racismo como asedio laboral, o racismo nstitucional,o racismo ambiental,o racimo dos grupos afectados pela violência racial entre eles mesmos (racismo horizontal). A produção de bens simbólicos pode ser diferenciada a partir dos pólos unos de produção restringida (pólo epistêmico), onde modo de produção,e reconhecimento e formaçao de uma cultura da acumulação do capital simbólico depende de grupos de profissionais da razão que produzem uma legitimação de saberes entre pares, outro pólo de produção ampliada, na qual a validação provém da população, do público, da rua, de instâncias ou lugares não profissionalizados na produção do simbólico.



No primeiro pólo o capital semiológico é produzido, pelo geral em nome da verdade, no segundo, se nota o predomínio de uma coloração invisível, apresentada como sentido comum, que tem a utilidade social ao simbólico produzido em seu seio. O pólo da produção restringida tem a tendência a trabalhar com representações ideais que são conexas e derivadas de sentimentos insensíveis e fora da realidade concreta, idéias manipuladas por uma sorte de operadores mágicos, geradores de ilusões que jogando com virtudes auto-predicadas de linguagem conseguem fazer desaparecer os elementos do real que lhes dificultam as suas formulações teóricas e, inclusive gerar a ilusão de que são os únicos modos de construção de realidade.



Cada teoria elimina o que não lhe convém, assim fazem pensar que o processo de exclusão é científico e o eliminado uma ilusão, uma distorção do sentido comum. Geralmente provoca a postulação epistemológica de uma ruptura necessária do conhecimento científico com o comum, como condição indispensável a produção das verdades. O famoso corte epistemológico com o que se convencionou chamar de verdade dos conhecimentos e reduções unidimensionais que diminuem a complexidade. O pólo da produção amplificada (pólo dóxico) é o dos atores sociais, incluindo os setores populares sindicais, trabalhadores, etc.



Estamos falando, agora, de um conhecimento que não postula esse corte epistemológico, que só predica um distanciamento entre diferentes instâncias dóxicas (de conhecimento comum). Uma postura de distância de certos segmentos de sentido comum para alcançar outros (o que é possível dado o caráter complexo e contraditório em que se configura o saber comum-comunitário, formas de vida e de atividades que alimentam jogos de linguagem em partes diferentes. Jogos semióticos sempre submetidos a uma coerção pragmática de uma ação em vias de realização, como também influenciados por jogos de linguagem provenientes de fluxos epistêmicos.



Estas sendas de análise nos levam a ter de admitir que os pólos na efetuam cortes entre si tão fortes que impeçam a ocorrência de diferenças, semelhanças e continuidades, porque existem processos de interpretação que não podem ser negligenciados. Nesse sentido, estamos habilitados a reconhecer um saber espistêmico ordinário, ou de uma doxa epistemizadas (no fundo, uma arte hermenêutica posta em comunidade, uma doxa hermenêutica, que nos aproxima desde o popular ao inacessível da convivência humana e nos provoca para sair dos lugares comuns e dos estereótipos que desde o poder tratam de contaminar, para alienar, os saberes populares de sentido comum). Deve ter-se um certo cuidado para não confundir o sentido comum com os lugares comuns, o primeiro guarda as potências libertadoras do dionisíaco, o segundo nos remete ao banal.



O pólo epistêmico é da ordem do previsível, aponta o previsível, o normatizado, o explicável pelos ilusionismos das leis científicas. Impõem o fantasma de uma regulação total da sociedade, sobre a base das leis de concepção em questão, disse Mafessolli, normativista, judicativa e digamos redutora, se existe. Impõem uma banalidade de base que ignora que a vida, a vitalidade, impõe medo aos pensamentos harmoniosos do estabelecido. Uma banalidade de base que tem horror as desmensuras do novo (o inesperado, o novo, sempre é dionísico, é dizer desmensurado). O novo, em sua contundência vital, na presteza de suas incertezas, contrapõe os postulados dogmáticos e as leis rígidas com as quais queremos encerrar nos fluxos da vida. Existe uma banalidade epistêmica que por momentos resulta mais tóxica que a banalidade dóxica.



O pólo dóxico da continuidade de um saber popular, tem de levar em conta, precisamente, que a vida é hábil, escorregadia, lúdica, emocional e também, para Maffessoli, um pouco travessa, cheia de desejos que se distraem, diria eu. Todas as coisas são necessárias estarem em mente se queremos fazer por um mundo social e pelos saberes que temos que ter sobre ele, a mesma revolução quântica que usa a física para o retorno ao natural, desde um saber popular, inclusive não se pode negligenciar nem banalizar que a vida tem um componente de júbilo existencial que precisa retomar, ou adquirir um lugar de importância na estrutura social. O povo precisa conjugar junto das lutas por sua dignidade os prazeres e os jogos. Uma concepção mais lúdica da vida precisa instalar-se na continuidade.



A vida como um jogo é também uma acepção do efêmero como condição existencial do qual nada escapa. O próprio do destino é a inclusão da consciência de precariedade de todas as coisas. A acepção ditosa do que é inevitável. A celebração do efêmero como condição da emancipação. Não se pode buscar a autonomia renunciando a celebrar o efêmero. Glorificar a eternidade das coisas é alienação, captura ideológica, dominação do grande capital. Celebrar o efêmero, vivê-lo ludicamente é vir ao encontro do sentindo do destino humano.



A lógica do viver mais que falava Nietzche. Tenho falado até aqui, sobre o pólo dóxico como preâmbulo para postular a necessidade de contar para esse pólo com um paradigma dionísico (Maffessoli) que substitua o epistêmico imposto na condição moderna. Dito de outro modo, um pólo que exige o desprendimento do paradigma epistêmico para outro estético (Guattari), ou para o Dionisíaco recém aludido (Maffessoli), ou para a epistemologia carnavalizada ou surrealista (Warat)



Um paradigma aberto que conserva este nome quase como contradição (o paradigmático e adjudicado as estratégias dionisíacas) e que se encontra expresso nas múltiplas reações da unidimensionalidade econômica, jurídica, técnica, ética, sociológica, etc.; rebeliões, sensibilidades ecológicas, recurso das terapias alternativas, a tenacidade de um querer viver com dignidade, enfim, a expressão de uma irreprimível saúde popular. A emergência de uma tática e estratégias existencialmente alternativas. Uma reconciliação com a alteralidade, com os outros e com este mundo que estamos e nos negamos a compartilhar.



As UP e seus intelectuales experimentadores e facilitadores tem melhores competencias que os partidos tradicionais, sustentados pelas ortodoxia representativa, que se preocupa apenas com as relacoes de poder, e descuida da multiplicidade dos territórios existenciais , no seio dos quais há circulacäo de desejos e sensibilidades. O mesmo poderia dizer-se das instituicöes jurídicas atreladas à ortodoxia normativista e à idéia da representacäo por via da magistratura dos encarregados de dirimir os conflitos do outro.



Tanto o direito quanto a política descansam na idéia de representacäo do paradigma moderno. Näo se trata de aniquilar a idéia de representacäo, que organiza o sentido da democracia moderna. Temos que entender ser necessário encontrar um estatuto de coexistencia entre a tradicäo representativa e as afirmacöes sociais da subjetividade vinculadas às relacöes de forcas moleculares que vem do popular.


Publicado por Casa Warat
fonte: http://luisalbertowarat.blogspot.com/2009/04/manifesto-para-constitucao-da-casa.html

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Epitáfio nº 30

Por Mariana Teresa

Libertou-se, enfim, do corpo que lhe pesava.
E sua alma dominou aqueles que lhe rodearam.
Deixou, silencioso, um recado aos pés de ouvido
"vivam a arte do amor"
ou algo assim que nos coubesse.
Mesmo sem palavras, inspirou-me,
tornando muitas, das que me brotam,
sementes dele.
A flor maior, porém, foi a esperança,
confirmada pelos olhares, gestos, abraços,
revelando, firmemente, que nessa terra
estamos todos juntos.


La Danse de Henri Matisse
Fonte: http://desquadriculando.blogspot.com/

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ao que não conheci em corpo, mas vi em coração



Cidade de Goiás, Início de Janeiro de 2011.



Luís, Warat,



Sei que nunca fomos apresentados formalmente. Sei também que hoje isso seria impossível. Mas nunca fui muito apegada a formalismos, mesmo. Então, sinto como se já nos conhecêssemos há muito tempo, como um tio e sua sobrinha, numa amizade construída da forma mais pura, e carregada de ensinamentos, que só o amor verdadeiro poderia conceder.

Devo confessar que nessa semana me peguei pensando que já era hora de superar esse vazio que você deixou. Deixar as lamentações, começar a reconstrução. Havia me esquecido que existem coisas insuperáveis, e que hoje, uma delas é o senhor. Sei que continuará lendo os blogs waratianos, e questionando o Direito, onde quer que esteja. Pois é essa a sua missão, e dela não se livrará nunca.

A nossa missão, agora que você resolveu se descansar, é semear todo o seu legado. É criar novos legados. É tomar-te como exemplo e seguir... Sabemos o quanto a alma é mais importante que o corpo, nessa vida. Enfim. Só queria te escrever, te contar o quão familiar você é na minha vida - sendo chará do meu pai, e estando quase sempre em minhas referências - pra você não reclamar depois, de que eu nunca fiz isso.

Hasta La Casa Warat, grande amigo! Um beijo e um abraço apertado (como os que o senhor costuma me dar, ao me visitar em sonhos).

La niña Jordana, de Goiás, no Brasil